
galeria
dentro do cenário
"Entrei no cenário. Já estava dentro do cenário. Agora, era também parte do cenário. Estava vazio. Imaginei uma lareira branca. Imaculada, sumptuosa. Um quadro tumultuoso, bravio. Um equilíbrio com a pedra branca, imóvel. Um caos no meio da ordem. Uma proposta, à partida, desconcertante. Esse absurdo como o laço que liga aquele espaço a mim – a nós. A simetria. Pensei, então, em luzes, numa certa claridade para aquele espaço ambíguo. Várias velas. Em dois castiçais palacianos, imponentes. Fecho os olhos com a sensação de vazio. Falta alguma coisa. Algo concreto, familiar. Mas, quando abro os olhos, a terrina de sopa já ocupou o seu lugar, bem no meio dos castiçais, em cima da lareira, a amparar o barco endiabrado. Este é o cenário. Um cenário estático e atemporal. Atemporal, logo aespacial. Espaço sem espaço, espaço como qualquer espaço, em qualquer tempo, com qualquer situação. No entanto, não há uma impossibilidade de construção, (de encontrar) um sentido. Pelo contrário, há um apelo, este cenário impele a construção de novos quadros. Quando entro no cenário, deixo-me vaguear, ao invés de seguir um caminho. Tal como um princípio de incerteza, todos os caminhos são possíveis. Há uma infinitude de possibilidades, uma fragmentação deliberada que cria uma continuidade aparentemente ilógica, absurda. "Talvez não te interesses pelo absurdo, mas o absurdo está muito interessado em ti".
Entrei no cenário. Continuava vazio. Os objetos, quando olhados com a devida atenção, cobrem-se de outros significados. Transformam-se. Melhor, transfiguram-se. Estavam todos eles posicionados como daquela vez. Desfilavam possibilidades concretas, materiais. O cenário enche-se, de repente, de cenários. Cenários de narrativas breves, comuns e fantásticas, encadeadas de forma desmedida, dialogando, articulando-se em forma de trama feita de linhas e nós descontínuos. O aleatório do quotidiano cobre inteiro o espaço, descasca-se à nossa frente, expondo uma polpa grossa, feita de camadas, de intenções. Cenário patafísico, feito de situações e soluções imaginárias.
Respirei fundo e entrei no cenário. Já estava dentro do cenário. Eu, também, era o cenário.
Dentro do cenário."

Mas, de todos estes sítios, interessam-me mais os que se relacionam com todos os outros sítios, de uma forma que neutraliza, secunda ou inverte a rede de relações por si designadas, espelhadas e refletidas. Espaços que se encadeiam uns nos outros, mas, entretanto, contradizem todos os outros.
Michel Foucault
Espaço sem espaço. Espaço sem localização. Espaço visto como um cenário, montado e desmontado para uma única toma, um cenário virtual.
Este cenário específico propõe sobrepor, num só espaço real, vários sítios que por si só seriam incompatíveis. Uma ambiguidade entre o real e o imaginário, uma subversão intencional de retirar a narrativa dominante, para, de um modo anárquico, criar uma liberdade de incerteza, um vaguear ao invés de seguir um caminho. Caracterizado por possibilidades infinitas, este cenário será (ou não) um gatilho para outros cenários, outras situações.
Apresenta-se como um cenário anónimo, sem tempo nem espaço. Ninguém sabe onde nem quando se encontra fisicamente, serão só os artistas/acções que entrarem dentro do cenário que poderão criar uma certa cartografia.